Fritz Lang nos EUA: A massa como força do Irracional
- Giovanni Alves

- 25 de abr.
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Fritz Lang chegou aos Estados Unidos em um momento de grande transformação social e política. Seus primeiros filmes americanos, especialmente Fúria (1936) e Vive-se apenas uma vez (1937), refletem uma visão crítica e sombria da sociedade, marcada pelo expressionismo e pela representação de personagens trágicos.
Nesses filmes, a massa não é apenas um grupo de pessoas, mas uma força irracional que pode destruir indivíduos e valores. Este texto analisa de forma sintética como Lang utiliza essa massa como símbolo do irracional e do perigo social, destacando elementos expressionistas e a construção de personagens que enfrentam tragédias inevitáveis.

You Only Live Once (1937) - Vive-se Apenas uma Vez - foi o segundo filme dirigido por Fritz Lang em solo americano. O seu debute nos Estados Unidos ocorreu um ano antes, com o impactante Fury (Fúria, 1936), produzido pela Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) e estrelado por Spencer Tracy.
A transição de Lang da Alemanha para Hollywood é um dos capítulos mais fascinantes da história do cinema, pois marca o encontro entre o rigor geométrico e o pessimismo metafísico do expressionismo alemão com a crueza temática do realismo social americano da era Roosevelt.
Fury (1936) - Fúria - : O Prelúdio da Injustiça
Se em You Only Live Once o foco é o destino implacável que persegue o indivíduo, em Fury Lang explora a patologia das massas. O filme narra a história de Joe Wilson (Spencer Tracy), um homem comum que é confundido com um sequestrador, preso e dado como morto após uma turba enfurecida incendiar a delegacia. Joe sobrevive e, movido por um ódio gélido, assiste ao julgamento de seus supostos assassinos, desejando a condenação de todos.
Em Fury, Lang transpõe para a América a análise sobre a "massa psicótica" que já havia esboçado em M, o Vampiro de Düsseldorf (1931). Como observa Siegfried Kracauer em sua análise sociológica do cinema alemão, que ecoa na fase americana de Lang:
"Os filmes americanos de Lang continuam sua preocupação com os mecanismos psicológicos da turba e a fina camada de civilização que mascara a crueldade primordial."
— KRACAUER, Siegfried. From Caligari to Hitler: A Psychological History of the German Film. Princeton University Press, 1947, p. 248.
A Continuidade Temática entre Fury e You Only Live Once
Embora Fury tenha sido o primeiro, ele forma com You Only Live Once um díptico sobre a falência das instituições americanas. Ambos os filmes lidam com:
O Erro de Identidade/Julgamento: Em ambos, o sistema legal falha ao identificar a verdade, baseando-se em aparências e preconceitos.
O Homem Encurralado: Tanto Spencer Tracy quanto Henry Fonda interpretam homens que perdem sua fé na humanidade devido ao peso de uma engrenagem social cega.
A Estética da Sombra: Lang trouxe consigo seus colaboradores e sua técnica de iluminação que transformava o cenário urbano em um labirinto de opressão.
A diferença crucial é que Fury termina com uma nota de reconciliação moral (imposta em parte pelo estúdio), onde Joe Wilson decide revelar que está vivo e perdoar seus algozes em nome da sua própria alma. Já em You Only Live Once, Lang teve mais liberdade com o produtor Walter Wanger para levar a tragédia até as últimas consequências, resultando em um filme muito mais niilista e esteticamente próximo do que viria a ser o Film Noir.
Conclusão sobre a Fase Inicial
A chegada de Lang com Fury e a sequência imediata com You Only Live Once estabeleceram o diretor não apenas como um técnico mestre, mas como um crítico social implacável. Ele não via a América como a "terra da oportunidade", mas como um novo palco para os mesmos dramas de poder, culpa e destino que haviam consumido a Europa,
Fritz Lang traz para seus filmes americanos a influência do expressionismo alemão, movimento que valoriza a distorção da realidade para expressar emoções intensas e conflitos internos. Em Fúria, essa estética aparece na forma como a multidão é filmada: não como um conjunto de indivíduos, mas como uma massa ameaçadora, quase monstruosa. A câmera frequentemente mostra ângulos inclinados e close-ups que ampliam a sensação de caos e descontrole.
A massa, nesse contexto, representa o irracional coletivo, uma força que pode ser manipulada por líderes ou explodir em violência sem motivo aparente. Lang não romantiza a multidão, mas a apresenta como um perigo real, capaz de destruir vidas inocentes. Essa visão crítica dialoga com o clima político da época, marcado pelo medo do totalitarismo e das revoluções sociais.
Personagens trágicos
Em Fúria, o protagonista é um homem comum que se torna vítima da injustiça e da violência coletiva. Ele é acusado injustamente de um crime e enfrenta a fúria de uma multidão que deseja linchá-lo. A tragédia do personagem está em sua impotência diante da massa, que o reduz a um símbolo de medo e ódio. Lang constrói esse personagem com profundidade, mostrando sua luta para manter a dignidade em meio ao caos.
Já em Vive-se apenas uma vez, o foco está em um casal que tenta escapar do destino trágico imposto pela sociedade.
A massa, aqui, aparece como uma força opressora que limita a liberdade individual e impõe regras rígidas.
O expressionismo se manifesta nas cenas de perseguição e tensão, onde a câmera enfatiza a sensação de aprisionamento e desespero.

A massa e o irracional
Lang utiliza a massa para representar o lado sombrio da natureza humana: o medo coletivo, a violência irracional e a perda da individualidade. Em ambos os filmes, a massa não é um agente de mudança positiva, mas um mecanismo de destruição. Essa abordagem contrasta com outras visões da época que viam a multidão como força revolucionária ou emancipadora.
A massa em Fúria e Vive-se apenas uma vez é um símbolo da fragilidade da justiça e da razão diante do poder das emoções coletivas. Lang mostra que, quando a massa se torna irracional, ela pode destruir não só indivíduos, mas também os valores sociais que sustentam a convivência.
Esses filmes continuam relevantes porque tratam de temas universais: o medo do outro, a injustiça social e a manipulação das massas.
A visão de Lang alerta para os perigos de uma sociedade que perde o controle sobre suas emoções coletivas e permite que o irracional guie suas ações.
Além disso, a estética expressionista e a construção dos personagens trágicos influenciaram gerações de cineastas, mostrando como o cinema pode ser uma ferramenta poderosa para refletir sobre a condição humana e os desafios sociais.


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